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POR MAIS MULHERES MARAVILHAS E ARLEQUINA NEGRAS

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Imagem: Mulher Maravilha / Carolina de Jesus

Imagem: Karol Conká / Arlequina

POR MAIS MULHERES MARAVILHAS E ARLEQUINA NEGRAS

Comemoramos, no dia de hoje, o Dia Internacional da Mulher. A princípio, mais uma daquelas datas criadas pelo mercado para impulsionarmos o nosso consumismo e presentearmos as mulheres importantes em nossas vidas.
Todavia, embora todas as homenagens às mulheres sejam uma forma de devolver àquelas o protagonismo perdido em algum momento na espiral histórica, é preciso entender a lógica que alavanca referida necessidade.
O mercado cinematográfico, atento ao ressurgimento da pauta feminina no final do Século XX e início do Século XXI, tratou de produzir películas que enalteciam, não apenas a mulher mãe, dona de casa, esposa, e profissional dedicada, mas, principalmente agora, a mulher empoderada, dona do seu destino.
E não por coincidência que a personagem Mulher Maravilha exibida, inicialmente, entre os anos de 1976 a 1979, interpretada pela atriz americana Linda Carter, que usava um uniforme no qual predominavam as características da bandeira norte americana, ganhara uma nova leitura em 2017, tendo como protagonista a Miss Turquia Gal Gadot, com todo o seu padrão estético adaptado ao mundo atual.
Porém, a mulher do século XXI não era somente um protótipo de modelo ideal sem defeitos, sem medos, nem frustrações. Aquelas que não se enquadravam no padrão de “mocinhas”, imposto pelos tempos modernos, precisavam se sentir representadas.
O campo estava aberto para o surgimento das anti-heroínas encabeçado, na modernidade, pela jovem Doutora Harleen Quinzel (Arlequina), a psiquiatra que se encanta pelo Coringa, eterno inimigo do Batman (DC Comics).
A personagem Arlequina ganhara maior visibilidade na película Esquadrão Suicida em 2019, na qual a nossa anti-heroína mostrara a sua faceta humana e, ao lado de outros anti-heróis, envereda uma luta, pasmem, contra forças do mal, que ameaçam o mundo. Em 2020 Arlequina alça voo solo e, numa toada mais voltada para o público jovem, eleva a bandeira do feminismo atual ladeada de outras companhias, todas mulheres.
Entretanto, a indústria do belo não pode permitir que seus padrões estruturais sofram uma derrocada total, a partir de uma pequena abertura dada devido às circunstâncias do mercado.
Desta feita, as nossas duas modelos de mulheres dos tempos modernos (Mulher Maravilha e Arlequina), embora sendo uma a heroína e a outra anti-heroína, têm o privilégio de serem brancas de olhos claros e dona de corpos estruturais. Ou seja, na hora de se inspirar ou na hora de acolher ainda não conseguimos romper com o padrão do belo nos moldes enxertados pelo modelo econômico advindo com a ascensão do capitalismo.
Nessa situação, a luta milenar contra o patriarcalismo (machismo obsoleto,) secular contra a escravidão e, mais recentemente, contra todos os ismos que representam o padrão do belo vai se esvaziando, haja vista que as narrativas inspiradoras de Mulheres Maravilhas da vida real tais como Esperança Garcia (negra,primeira advogada do Brasil), Carolina de Jesus (escritora, poetisa e compositora negra com sua obra sendo publicada em 40 países e traduzidas para 16 idiomas diferentes), Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz (trazida da África para o Brasil e nossa primeira Santa Negra, segundo o historiador Eduardo Bueno em https://www.youtube.com/watch?v=HpcbXmfrHnc) são preteridas em favor de uma lógica estética/mercantilista e segregadora, a qual, disfarçada de política de inclusão, ganha uma nova roupagem a legitimar a sua ordem de forma atemporal.
Uma leitura do quadro exposto mais próxima da realidade atual nos remete para nossa anti-heroína, qual seja a rapper Karol Conká, participante de um reality show ocorrido recentemente em nosso pais.
A nossa Arlequina negra, diante de seus comportamentos durante sua passagem pelo reality show, de acordo com as regras impostas pelo programa, fora devolvida à sua prisão (fato de ter nascido mulher e negra no país em que vivemos hoje), ou seja, o seu habitat natural, antes de começar sua infeliz empreitada na máquina de entretenimento da qual aceitou participar.
Todavia, enquanto a nossa anti-heroína Branca, que fora resgatada de uma prisão de segurança máxima, onde foi presa pelos crimes horríveis que cometeu para alcançar a redenção, o nosso perdão e o acolhimento, após salvar o mundo de forças malignas, sendo punida com a volta à prisão, mas com regalias; a outra, nossa Arlequina negra, não tem um tratamento digno a esperando, ao voltar para o seu calabouço. Pelo contrário, tem que enfrentar a execração/cancelamento de milhões de pessoas que acompanham o programa de entretenimento.
Na verdade, a nossa feiticeira má (Karabá), ao voltar à sua realidade não encontrou nenhum conforto. Não tivera sequer o mesmo benefício concedido à anti-heroína branca, qual seja o isolamento em sua cela, às vezes necessário para uma reflexão sobre como melhorarmos enquanto seres humanos, tal qual a situação vivida pela mesma, naquele momento, lhe impunha.
Ademais, ao invés de ter direito a viver o seu conto de fadas e ser socorrida pelo seu Coringa, a nossa Karabá tivera, dentro de uma realidade bem brasileira, que conviver em uma jaula superlotada de pessoas com espinhos nas costas, em lugar inatingível, iguais ou maiores que os seus sem ter o direito de ser salva por nenhum Kiriku. (Kiriku e a Feiticeira em https://www.geledes.org.br/famosa-lenda-africana-de-bebe-guerreiro-vai-virar-serie-de-livros/ https://www.geledes.org.br/famosa-lenda-africana-de-bebe-guerreiro-vai-virar-serie-de-livros/ ).
Por fim, vale salientar que, em tempos tão difíceis para a humanidade, em que pregamos veladamente o amor e a empatia no mundo virtual, possamos comemorar essa data simbólica tão importante para as mulheres, assim como para todos nós, concedendo à Karabá (a feiticeira má) o mesmo direito dado à Arlequina (a menina boa).